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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Vazio

Lendo um certo Bocó, encontrei um poema de Marcelo Ariel, que termina com abismo. Ele me fez lembrar o abismo de um poema de Álvaro de Campos, que um dia me lembrou este poeminha que fiz em um dia dos anos 90, perfeito para hoje.

É. Tudo é poesia.

Uma ponte se parte
e o que unia a razão,
voa no vazio.

O que é real?

Só o pulsar que alterna
o peso e a leveza desse nada.

Tudo se espalha
com os pedaços da ponte,
flutuando no espaço desse abismo.

Não vejo chão,
Nem extremos
Só pedacinhos brilhantes ...
sem sentido...
E sou absorvida por eles!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Reflexos Fotográficos II

Trafegando pelas paisagens captada por outros olhares vi duas lindas imagens do pôr-do-sol. Por coincidência, uma surgiu após a outra.

Jack Guez / AFP

A primeira imagem, captada em 15 de novembro, publicada em uma matéria sobre o conflito na  Faixa de Gaza.









Autor: Leguth Edson


A segunda surgiu logo após, publicada no faceboock pelo amigo Edson Leguth, em um grupo do qual faço parte, "Coisas de Santos". A foto é do dia 18 de novembro de 2012.













Deveria ser no mínimo latitudes e longitudes diferentes, culturas distintas vivendo seus dias com o sol se pondo em um rastro de luz tão parecido. 

Porém, lá em Gaza conflito declarado, segundo dia de bombardeio... Sirenes.... Mortes... tensão a aumentar expandindo e exaltando ainda mais o ódio e a intolerância. Desde o dia 14 já são mais de 120 mortes, que deve aumentar depois do forte bombardeio de hoje.

Aqui em Santos, São Paulo, Brasil, era domingo de sol de um feriado prolongado, resultando em praias lotadas por pessoas de todo o Estado. Poderia se dizer que por aqui reinava a Paz. 

Acontece que o conflito que vemos em São Paulo não é declarado e agimos naturalmente em meio a violência, porque o problema é sempre do outro até que nos atinja diretamente. 

Essa onda de violência  já resultou em mais de 200 mortes, geradas sem bombardeios teleguiados e televisivos. Podemos dizer que o conflito é totalmente diferente, tanto na razão, história e munição, porém, a situação de “tensão a aumentar expandindo e exaltando ainda mais o ódio e a intolerância, é a mesma”. 

Essa comparação passou por minha cabeça enquanto olhava as duas imagens e meu coração, então, falou: "Como pode diante de tão bela luz não pararmos tudo para contemplar e agradecer ?".

Seja aqui em Santos, lá em Gaza ou qualquer outro lugar desta nossa Nave Terra, se tivéssemos essa rotina em nossas vidas, estes e outros conflitos não seriam escritos no livro de nossa história, porque a sensibilidade despertada por essa contemplação não deixa margem para a destruição.

Olhar o pôr-do-sol é uma prática de muitos anos que me levou ao caminho da meditação e oração.

Deixo um quase poema de 1986, esquecido em uma de minhas gavetas e só agora mergulhada nesses pensamentos me lembrei.

 
Sandra Silva - Santos/SP - Zona Noroeste- ao fundo a Serra do Mar
Hoje, antes que o sol parta para o outro lado do planeta,
Olhe para ele e se possível sorria.
Não importa que esteja escondido atrás de nuvens,
Ou que você esteja em um quarto escuro,
Olhe para ele assim mesmo.

Também estarei olhando e sorrindo.

Então, pense em algo que te encante.

Talvez eu pense na luz das estrelas que logo surgirão,
Ou nas nuvens que as encobrirão,
em alguém... em ti...
Pensarei em algo que amo.
O que me deixará mais sensível,
forte, clara e perto de você
Que também se sentirá como eu....
Mágicos... humanos...

Quem sabe assim unidos,
Prestaremos uma homenagem
ao planeta,
ao sol,
aos reinos,
não sei.

Sei apenas que este instante
será uma declaração de amor a vida,
uma prece
que nos deixará mais conscientes e próximos de Deus.

Dezembro/86

Por falar em Prece deixo esse clip 
The Prayer com Celtic Woman 





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Reflexos fotográficos - I

Foto Darrel Champlin - Santos/SP - Ponta da Praia
Se conheço outros mundos para dizer que são melhores ou mais bonitos que o nosso, não me lembro. Já tive  sonhos,  flash de lugares distantes que não sei onde é, além de experiências deixando esse corpo. Porém, minha memória real foi construída com as imagens que registro, através destes olhos físicos, ao percorrer os solos pelos quais meus pés caminham e pelas captadas por outros olhares, para que meus olhos trafeguem. Mesmo assim, sem outras comparações, eu afirmo:
QUE PLANETA LINDO E MAGNÍFICA DIMENSÃO  HABITAMOS!!!
Esta nossa vida seria outra SE os seres humanos soubessem apreciar as paisagens e seus detalhes, que vão das nervuras de uma folha às composições de duas muralhas, como desta foto... Uma flutuante a passar toda prosa pelo passado estático de outra muralha, que já foi um dia imponente e importante. Apesar das diferenças, ambas carregam a mesma carga; história.
É, lá vem o SE... Esses "SEs" também fazem viagens, aquelas da imaginação e intenção. Infelizmente os seres humanos, irmãos meus dessa viagem infinita, nesse momento de sua trajetória não sabem olhar, menos ainda contemplar... SE soubessem talvez não tivessem tempo, nem estímulo para realizar tanta destruição contra nossa própria raça e o solo que a abriga. 
Solo da linda nave incandescente Terra que em sua viagem pelo universo aceitou-nos como passageiros.
Passagem rápida com a duração de um instante do tempo cósmico …. Uma colorida e rica experiência que a grande maioria desperdiça.

domingo, 11 de novembro de 2012

Sobre um vírus chamado medo.


“Um vírus chamado Medo”.
(caso a legenda esteja desativada é só apertar o botão vermelho)


 


Depois de ver esse documentário, reforcei ainda mais meus pensamentos sobre o medo e suas consequências em nossa sociedade. Na verdade ele tem sido um tema a me acompanhar desde que me entendo por gente. Não que seja uma pessoa medrosa, ao contrário, para poder seguir apesar de todas as adversidades, aprendi a combater os medos que estavam a minha volta e dentro de mim. Aprendi a vê-lo como um inimigo limitador  a ser combatido, uma doença, um vírus que não me pertencia.

Sou daquele tempo em que o bicho papão pegava mesmo e se não fosse ele poderia ser o homem do saco ou o chinelo de minha mãe, o mais perigoso de todos. Para piorar a história, morei dos três aos sete anos em uma rua que ficava atrás de um cemitério. Rs

Como não tinha televisão em casa e nem nas da vizinhança, a noite o povo gostava de se reunir na rua com as cadeiras na calçada. Enquanto as crianças brincavam, os causos de família eram relatados e quando era de assombração parávamos qualquer brincadeira para ouvir. rs Aquele programa de rádio, “Histórias que povo conta”, veio depois e nem me assombrava mais. Ah!! Nesse período tomei um baita choque elétrico que quase me levou para o outro mundo.  A recomendação era evitar esforço físico enquanto estivesse com a disritmia cárdica. Moral da história, fiquei com medo de correr e de outras brincadeiras que fizessem meu coração bater mais rápido. rsrs Lá sabia eu que é natural o coração acelerar durante uma corrida, mas ali quietinha ele batia sossegadamente. rs Assim, aprendi desde cedo a observar e escutar meu coração e o que estava ao meu redor.

Dos sete anos para frente foram vários os medos de outras origens. No rádio, o Gil Gomes nos remetia ao mundo real de bandidos, sequestradores, terroristas e assassinos. Naquele horário dificilmente tinha uma casa com o rádio desligado. Andando pelas ruas poderíamos escutar de casa em casa os casos que viravam assunto do dia, da semana ou do ano. 

Somando-se a ele havia o Juizado de Menores. Já não morava atrás do cemitério, mas em frente a uma escola e quando terminava o horário noturno só via o pessoal correndo para casa rapidinho, antes que o Juizado passasse na rua. Quanta corrida demos?!!!Kkk... Às vezes ficávamos na rua normalmente, em frente a nossa casa, brincando ou conversando, aí passava um correndo e gritando “Juizado. Juizado...” Num instante, como o Leão da Montanha, era só saída para a esquerda, saída para a direita e rua deserta.

Entrávamos correndo e ficávamos encolhidas, observando através do vitrô entreaberto... Era um alívio quando víamos a rua vazia... Cheguei a ver também as abordagens de policiais armados em nossa esquina. Quando isso acontecia fechávamos correndo a janela e íamos para debaixo do cobertor. Andar sem carteira profissional no bolso era extremamente perigoso, meu pai antes de sair certificava que estava com ela. Não entendia direito o que era aquilo, mas sentia falta das cadeiras nas ruas e conversas com os vizinhos durante a noite.

O tempo foi passando e cheguei na adolescência repleta de sonhos e desejos, que para aquele meu mundo eram de certa forma perigosos. Não pensava em namoro, casamento e filhos como a maioria de minhas amiguinhas. Queria mudar o mundo, queria romper limites que a vida me empunha, queria ter uma profissão. Com onze anos já tinha escolhido o jornalismo. Lembro que sobre isso uma vizinha me disse: “tua máquina de escrever vai ser um tanque” e todo mundo riu. Fiquei muito tempo sem falar com ela. Meu medo naquela época era não conseguir romper os limites que a vida me empunha.

Bem, foi justamente nesse período de adolescente que ia mudar o mundo, que um filme me levou a pensar conscientemente sobre o medo. Hoje percebo o quanto ele me ajudou a quebrar minhas  barreiras. De fato, consciência é tudo!

O filme foi 1984... Era um feriado de 1974, período da tarde, eu sozinha na sala, pois ninguém conseguiu acompanhar e ainda tive que brigar para não mudarem de canal. Depois do filme, quase que hipnotizada me sentei no muro e fiquei olhando a Serra do Mar. O entendimento que tive naquele momento era que o medo controlava nossas vidas e nosso mundo. “Nunca, ninguém poderia saber qual o meu maior medo. Nunca”. Prometi. Intuitivamente, pensei que não poderia deixar o medo me impedir de mudar minha vida.

De lá para cá se passaram alguns aninhos e essa vida foi muito prodigiosa em me testar com relação ao medo e quebra de barreiras.

Hoje, percebo com mais clareza o quanto o medo domina nossas vidas, controla os rumos de nossa sociedade, nos tornando prisioneiros de vontades alheias. 

Podemos não ter o Grande Irmão, mas temos uma rede muito mais sutil e dominadora.

Para combatê-lo só a ampliação da consciência. Deixar a preguiça de lado e pensar, sentir e ir além do mundo que nos cerca. Isso se faz de várias formas, uma delas é buscar informações e não esquecer de confrontá-las.

Mas, aviso: dá trabalho.




Esse outro é um documentário sobre 1984, 
o melhor que vi até agora. 

sábado, 27 de outubro de 2012

Dos meus pequenos contos - Linhas: As Paralelas

 
Depois de uma conversa com uma amiga, lembrei desse pequeno escrito e resolvi tirá-lo da gaveta. Fazia parte de uma série de continhos que comecei a chamar de Linhas. Essas são as Paralelas... Outras estão enroladas no novelo ou guardadas na gaveta. rs.

Paralelas

1 
Um som absurdo rasgou o ar. Agudo demais para os ouvidos humanos perceberem. A atmosfera depois daquela vibração elevou o tom do pôr do sol e os raios foram cortados por finíssimas faixas horizontais avermelhadas.
O cachorro na varanda latiu como um desesperado para o nada. Depois virou-se perguntando com os olhos o que havia acontecido. Ela também não sabia, apenas sentiu um calafrio muito forte e a sensação de um movimento intenso em outro nível da consciência dela e da Terra. Uma força que não conhecia chegava veloz.
Fechou os olhos. Viu a imagem de uma taça do tamanho do mundo com água muito turva, até a boca. De um ponto de luz, acima da taça, caia uma gota clara produzindo intensas ondas que escorregavam para fora como fortes cachoeiras .
- Pobre Taça! Pensou.
Uma corrente elétrica passou rapidamente por sua coluna. Aquele sentimento de pena abriu portas para uma dor dominá-la. Lágrimas escorreram juntando-se coma as da taça. A dor do planeta, a dor sem sentido, sem juízo invadiu-a até as entranhas e apertou seu coração como se fossem mãos a espremê-lo. “Nada te Turbe! Nada Te espante. Tudo passa”. Focalizou todo o seu ser nas palavras de Tereza e aos poucos abriu os olhos lavados e distantes.
Era noite e as estrelas em seus lugares a enchiam de luz pulsante. O cão olhava para ela com aquele ar de quem ainda espera uma resposta.
- Tudo bem. É só muito trabalho no silêncio dos mundos.
 
                  2

 Aquele barulho infernal do trânsito estava pior naquela tarde . Com a tempestade que despencou a rua encheu e um enorme congestionamento está formado. O céu com o tom vermelho ferrugem desses finais de tarde deixa uma impressão de sujeira no ar.
O carro parece lhe perguntar se terá coragem de jogá-lo no meio daquela confusão. Tinha outro jeito? Após um dia muito duro era hora de ir para casa, mesmo com mais uma batalha à enfrentar: o trânsito. Depois a recompensa... a sua banheira e cama... não... antes comeria algo assistindo o jornal. A última obrigação do dia.
Olhou para o retrovisor, girou a chave e mais um barulho de motor ressoou no ar. Têm dias nos quais as buzinas e motores parecem mais ferozes, entram com tanta força ouvido a dentro que ocupam o lugar dos pensamentos. Os dela já embaralhados se rebelaram naquele momento e giraram feito um tornado em sua cabeça.
Sentiu uma tontura nauseante. Tentou puxar o ar, porém, um peso maior a invadiu. Tudo rodava com sua mente... O mundo lá fora. Fechou os olhos. Viu-se em uma taça do tamanho do mundo, algo caia dentro dela provocando ondas enormes querendo levá-la embora.
- Estou mal. Pensou.
Sentiu um calafrio por todo o corpo. Sua mente mesmo naquele turbilhão continuou dando-lhe certezas, desta vez que finalmente o stress chegava ao limite.
Conseguiu respirar e concentrou sua atenção na banheira espumante e quente a sua espera. Depois de uma boa noite de sono ficaria nova.
- Juro que amanhã marco uma consulta.

3
 
Aquele barulho infernal de todos os dias na hora da saída. Parece até que abriram a porta do curral e desesperados eles correm para fora antes que alguém se arrependa e fechem o portão. Nem precisava do despertador quando dormia a tarde, acordava assustada com aquele som de gralhas que ficava em seu ouvido por um bom tempo... ressoando... ressoando.
O sol logo iria embora. Hora de se arrumar para o encontro de hoje. No espelho o céu aparecia alaranjado deixando o seu corpo com um reflexo dourado. Tentou pensar em uma roupa, mas aquelas malditas gralhas a deixava irritada demais para decidir qualquer coisa. Olhando com atenção o rosto viu que nem a tarde de sono havia eliminado aquela olheira terrível. A maquiagem daria um jeito. De repente lembrou do que a está incomodando, colocou a mão na barriga e sentiu enjoo.
O espelho não denunciava a gravidez, mas aquele som que vinha de fora ecoava em seu ventre. Olhou fixamente a sua imagem e foi tomada pelo horror de ver seu corpo se avolumando, suas pernas inchadas, sua vida invadida. Sua face levada pela alucinação foi lentamente tornando-se flácida e velha. Paralisada, fechou os olhos e viu-se afogando dentro de um mar violento, turvo e imundo.
- Preciso sair daqui. Gritou.
Não conseguiu se movimentar. Vomitou. Os olhos continuaram fechados para evitar que aquele cheiro azedo se misturasse a imagem do espelho. Tentou pensar que poderia ser alarme falso, caso contrário teria que dar um jeito. Sua vida, seus sonhos, dependia daquele corpo.
-Não. Mil vezes não.
Abriu os olhos no quarto estava escuro.
- Talvez seja melhor ficar em casa essa noite. Amanhã resolvo isso.

                                               4
Um som ensurdecedor ecoou por toda a casa. Serviço atrasado, o jeito era fazer tudo ao mesmo tempo. A máquina de lavar com defeito sambava na área de serviço. Na batedeira preparava a massa de um bolo e dava graças aos céus por sua filha passar o aspirador na casa, mesmo que para isso tivesse que aguentar aquele som no último volume. Nem conseguia ouvir a tv ao seu lado!
Naquele horário compensava ficar na cozinha, o único cômodo onde podia ver por uma pequena janela o sol vermelho prestes sumir. Um espetáculo! Momento de permitir soltar a mente, lembrar de poesias, histórias que havia lido no tempo dos sonhos antigos, quando desejou casar, ter filhos, casa decorada e equipada como a que tem hoje. Lembrar deles lhe parecia melhor do que vivê-los. As vezes achava que tinha sonhado tão errado que havia desaprendido a sonhar. Devia ser feliz, conseguiu seu desejo.
Sentiu vontade de chorar essa felicidade. Lágrimas escorreram direto para a massa que girava abaixo de seu rosto, enquanto a massa sonora misturava-se aos seus soluços. Sentiu o coração pulsar tão forte e acelerado que pensou fosse pular para fora e encontrar aquele sol vermelho por inteiro. Fechou os olhos e tudo o que viu foi uma taça do tamanho do mundo, seca.
Respirou fundo, pensou no marido, filhos, futuros filhos de seus filhos e no jantar. Foi abrindo os olhos na velocidade proporcional em que diminuía a velocidade da batedeira... Até desligá-la. Tudo ficou quieto e escuro.
- Um bolo de lágrimas, será que vai encruar?