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domingo, 11 de janeiro de 2015

Quando o Ser foi substituido pelo Ter.



“Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”. 

Tenho pensando muito nesse trecho do manifesto comunista e hoje resolvi terminar um texto que comecei a escrever a partir desses pensamentos:



A solidez a qual fazia referência, Marx
e Engel, era a das ideologias tão enaltecidas e preservadas em determinados momentos. Das formas de governar aos modos de produção e estruturas que pensamos serem sólidas. A história mostra que todas se rompem, caem e se refazem. Dialética.

Para eles, com o capitalismo não seria diferente, teria um ciclo que como todos os anteriores chegaria ao seu final. Vivemos de ciclos que se esgotam em si mesmo.

O erro de alguns, na época, foi pensar que esse ciclo capitalista não teria forças para outras renovações. Enfim, capitalismo tende a continuar sua existência enquanto tiver o que consumir, por ser esse o mecanismo pelo qual baseia sua estrutura: Consumir, consumir, consumir, mesmo que devore a si mesmo. Neste contexto o que temos de mais valioso, a Vida, é descartável.  O Ser é substituído pelo Ter.

A norma para a engrenagem não parar foi clara: estimular o querer ter para alimentar a rede devoradora.  Nessa lógica, vendeu-se a ideia de que querer é poder não apenas para concretizar objetivos, mas para obter esse poder.  Quem mais quer, mais têm, conquista degraus na pirâmide social, mais chances têm de ser feliz e se realizar através das coisas.  Implanta-se assim, o delírio pelo ter, não importa o que, para o que e por quê.

Pura ilusão!!! Quem mantém esse poder, é quem constrói, maneja e estimula esse "querer” e ai, os meios de Comunicação Social tornaram-se os grandes aliados, ou melhor, o novo braço direito do Poder econômico.  

A certa altura desse ciclo capitalista, o desejo não poderia mais ser livre, teria que ser dirigido, dosado e para isso dominado, porque o capital já não mais precisava só de mãos escravizadas para a produção e sim de desejos escravizados para consumir essas ilusões, na dose certa.

O que não tem preço, por ser inerente ao Ser, foi capturado e reconsagrado ao reino do consumo.  Ideologias, sentimentos, sonhos, princípios... Tudo cooptado e transformado em mercadoria. Chegamos agora ao ponto em que o Sistema é sustentado pelo que não se toca. A solidez da mercadoria é desfeita como fumaça no ar e o reino das emoções exposto nas vitrines.

A velocidade passou a ser a palavra-chave e a informação mais uma mercadoria de grande escala de consumo. Nessa Sociedade da Informação o Ser não precisa entender, não precisa pensar, têm os analistas que pensam e transmitem seus pensamentos... É só consumi-los. Nesse pacote vem incluída à ilusão do conhecimento. Mais uma captura do que há de mais vital na sociedade humana.

Porém, essa velocidade interfere não apenas em nossa relação com o tempo e sua continuidade, como também, nas nossas relações sociais. Essas ganham outras plataformas,  onde a virtualidade toma forma e se confunde com o real.

A vida e suas estruturas tornam-se efêmeras, superficiais e a relação humana desce ao nível da banalidade. Sem firmes alicerces internos, fica mais fácil derrubar construções e colocar outras no lugar, inclusive no lugar do humano.

Só assim consigo assimilar toda a desconexão que temos com tudo aquilo que de fato deveria importar à  nossa raça humana: o outro humano e o mundo com o qual nos relacionamos e pertencemos.
O que historicamente se esgotam são os ciclos e não o humano. Reconhecer essa verdade histórica devolveria a liberdade e a chance de sobrevivência de nossa civilização. Não reconhecê-la, nos levará a barbárie.

Por isso eu não sou Charlie...  EU SOU HUMANA de sobrenome SILVA.  E como humana sinto pelos mortos em Paris e por todos os humanos massacrados diariamente nesse planeta, seja por qual motivo for.


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