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domingo, 22 de maio de 2011

São Tomé das Letras em um dia.



foto do início dos anos 90.
Faziam uns 11 anos que não voltava à São Tomé das Letras e confesso que a princípio levei um choque com o que vi. Em meu imaginário trazia a São Tomé antiga, da metade dos anos 80, lugar onde reencontrei as estrelas e o infinito, onde aprendi que é possível a integração dos reinos de forma harmônica e pacífica, incluindo ai o humano. Em São Tomé essa consciência de alguma forma ancorou em mim e graças, ainda está aqui.

Maravilhada via as flores que brotavam entre pedras, as nuvens que passavam abaixo de meus pés, as corredeiras que se uniam as pedras que se uniam as matas que se uniam aos pássaros que se uniam as borboletas... Tudo era uma única vida. Não, tudo é uma única vida. Só nós humanos é que vivemos segmentados, separados e talvez por uma inveja inconsciente dessa nossa perda de percepção da unidade, separamos o que está unido e destruímos o que não entendemos. Como diz Caetano Veloso “é que narciso acha feio o que não é espelho”.

Bem, São Tomé foi amor a primeira vista!


Amigos haviam prevenido que a realidade da antiga vila era cruel, mas ver de perto foi outra história.


Na estrada já via os montes brancos como neve. Toda a cobertura vegetal retirada e as pedras expostas como se estivesse em carne viva... São Tomé cresce desordenada e sua “carne” é retirada predatoriamente por pedreiras. Não consegui contar quantas explosões ouvi em um só dia, sem falar na quantidade de caminhões que saiam carregados de suas pedras. Várias casas com as características que via-se apenas ali, foram demolidas para dar lugar a outras que encontramos em qualquer lugar... Como é triste esse pensamento que progresso é mesmice...

Mas, andando fui deixando de lado o estragado e tentando reencontrar São Tomé, só tinha um dia para isso. Nada de sair das redondezas da cidade.
foto de maio de 2011
Porém, aos poucos meus sentidos foram se abrindo e percebendo que ela ainda está ali, por detrás dessa máscara de paranafernália que colocaram sobre ela.
 
Ainda existem flores, casas e muita energia brotando de suas pedras e das pessoas que a amam pelo que ela é, não pelo quanto vale cada caminhão carregado de sua carne ou a exploração inconsciente de seu turismo.

Conversando com algumas pessoas que foram colocadas delicadamente em meu caminho, senti a emoção de reencontrar a alma da cidade.
Na pousada Arco-Íris com as meninas que me atenderam. Muito atenciosas e como moradoras antigas da cidade conhecem muito das novas e antigas histórias.

Conversando com o Márcio da Ser Criativo, que está ali há mais de 20 anos, local onde saboreei pela primeira vez a pasta de tahine com mel. Hoje, é uma excelente pizzaria e resiste bravamente para manter o comércio e a construção no padrão original; uma das primeiras casas da antiga vila. A pizza é servida na pedra, nada melhor para São Tomé, pois assim ela fica quente por mais tempo. Ali também estão expostas algumas pinturas de mandalas que o Márcio faz utilizando o pó das pedras de São tomé. Uma técnica inventada por ele com um resultado final belíssimo.
 
Um lugar onde as pessoas
 param para ver o pôr do sol,
só pode ter
algo de muito especial.
Nas lojas Ponto de Luz conversando com a Alessandra e na Meia Lua com a Silvia. Por sinal, no meio de nossa conversa apareceram duas crianças com um abaixo-assinado em favor da mãe, que responde um processo por cuidar em sua casa de animais abandonados e doentes. Pode uma coisa dessas? Além de não fazerem o bem, tem gente que atrapalha quem o faz. O menino de 10 anos, contou que esses dias carregou no colo, por uns 3 km, uma cadela atropelada e abandonada na estrada. “Agora ela está bem e é uma heroína por conseguir sobreviver depois de tudo que passou”, disse ele todo satisfeito após contar sua aventura. AH! O nome deles não anotei, mas a cadelinha agora se chama Antonia Guerreira. É!!! Ao lado de guerreiros até uma cadelinha se torna uma.

Esse é um pouco do espírito ainda encravado no pico daquela montanha na serra da Mantiqueira. São Tomé, não é apenas uma imensa reserva de quartzito, em rochas metamórficas do período pré-cambriano, mas uma reserva de histórias ainda não esclarecidas e que pode ser perdida para sempre. Uma imensa reserva de energia que não se vê com os olhos de quem procura apenas explorar e não comungar com a natureza e sua imensa capacidade de transformação e união.



São Tomé das Letras, muito poderia falar sobre la... Deixa para depois. Por enquanto deixo esse vídeo que fiz com as imagens que captei durante esse dia de maio de 2011.

Um comentário:

  1. Adorei!!!!
    Já me apaixonei por São Tomé... já vou me programar!!

    beijoss

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