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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Semeando II : O homem que plantava árvores


A Vida é prática. 
 
Essa é uma lição que recebemos das crianças e de pessoas ... Digamos, descomplicadas.

A simplicidade da Senhora que jogava sementes pela janela do ônibus, que inseri em "Não espere resultados, siga semeando", também é encontrada no personagem Elzéard Bouffier, de "O Homem que Plantava Árvores", conto de Jean Giono, escrito em 1980.

Não consegui descobrir se Elzéard Bouffier existiu, mas seria possível que sim, seja na França, cenário onde desenrola a historia, no sertão nordestino ou em qualquer outro canto do planeta onde a vida precisa brotar.

Durante mais de 30 anos, Elzèard Bouffier, viveu para semear uma área dos Alpes franceses. Terra que encontrou árida e aparentemente sem vida.

Todo dia selecionava sementes que delicadamente plantava enquanto caminhava com suas ovelhas. No silêncio seu trabalho era feito pelo simples motivo de ser necessário. Nada mais.

O filme de animação feito com base nesse conto é belíssimo, tanto pela história, quanto pelos traços dos desenhos e narração. Obra rara e pouco divulgada em um mundo que precisa tanto relembrar a beleza humana que está muito além das formas, nas atitudes que transformam e florescem os espaços áridos. 

Como diz o início do texto:

"Para que o caráter de um ser humano revele qualidades verdadeiramente excepcionais, é preciso ter  a chance de refletir sobre suas ações durante longos anos. Se essa ação for desprovida de todo  o egoísmo, se  a razão que a dirige for de uma generosidade sem limites, se  estiver absolutamente certo de que não está à procura de recompensas de forma alguma e, acima de tudo, tem deixado marcas visíveis em todo o mundo, então sem sombra de dúvida se está diante de um caráter  inesquecível".

 e ao final:

 "Quando eu penso que um único homem, confiando apenas em seus próprios recursos físicos e morais, foi capaz de transformar um deserto nesta terra de Canaã, eu estou convencido que a despeito de tudo, a condição humana é verdadeiramente admirável. Mas quando eu levo em conta a constância, a grandeza da alma, e a dedicação desprendida necessária para trazer esta transformação, eu sou tomado de um imenso respeito por este camponês velho e inculto que soube como realizar esta obra digna de Deus.

Essas sementes de Bouffier devolveram vida a um pedaço dos Alpes, existem outras que devolvem vida à pessoas, animais, famílias e sociedades.

Aqui deixo o filme de animação que em 1988 ganhou o Oscar dessa categoria.


 Essa foi a melhor versão que encontrei.


Aqui deixo um trecho do belo conto de Jean Giono
"......

A companhia deste homem trouxe-me uma sensação de paz. Eu perguntei-lhe na manhã seguinte se eu podia ficar e descansar o dia inteiro com ele. Ele achou aquilo perfeitamente natural. Ou, mais exatamente, ele me deu a impressão de que nada podia perturbá-lo. Este descanso não era absolutamente necessário para mim, mas eu fiquei intrigado e queria saber mais a respeito daquele homem. Ele tirou as ovelhas do aprisco e levou-as ao pasto. Antes de partir ele molhou num balde d'água o saquinho que continha os frutos de carvalho que ele tão cuidadosamente havia escolhido e contado. Eu notei que ele carregava como uma espécie de cajado uma barra de ferro de um metro e meio de comprimento e a espessura de seu polegar.

Eu andei como se estivesse passeando, seguindo uma rota paralela a sua. Suas ovelhas pastavam no fundo de um vale. Ele deixou seu rebanho aos cuidados de seu cachorro e subiu até o ponto onde eu estava. Eu fiquei temeroso de que ele viesse para me repreender por indiscrição, mas nao: era sua própria rota e ele me convidou para acompanhá-lo, se eu não tivesse nada melhor para fazer. Ele continuou subindo por duzentos metros.

Tendo chegado ao local destinado, ele começou a cavar a terra com o cajado de ferro, fazendo um buraco onde ele punha um fruto de carvalho, cobrindo o buraco depois. Ele estava plantando carvalhos. Eu lhe perguntei se aquela terra pertencia a ele. Ele disse que não. Ele sabia a quem aquelas terras pertenciam? Ele não sabia. Ele supunha que era terra comunal, ou talvez pertencesse a alguém que não se importava com ela. Ele mesmo não se importava em conhecer quem era o proprietário. Deste modo ele plantou seus cem frutos com todo o cuidado.

Depois do almoço ele começou a separar seus frutos de novo. Eu devo ter insistido o suficiente em minhas perguntas porque ele as respondeu. Há três anos ele plantava árvores deste modo solitário. Ele havia plantado cem mil. Destes cem mil, vinte mil nasceram. Ele contava em perder metade destas para os roedores ou para qualquer outra coisa imprevisível nos desígnios da Providência. Então sobrariam dez mil carvalhos que cresceriam onde antes não havia nada.

Neste momento eu comecei a imaginar qual seria sua idade. Claramente passara dos cinqüenta anos. Cinqüenta e cinco ele, ele me disse. Seu nome era Elzeard Bouffier. Ele tivera uma fazenda nas planícies onde vivera a maior parte de sua vida. Ele perdera seu único filho, e depois sua esposa. Ele retirou-se à solidão, onde ele se comprazia numa vida sossegada, com seu rebanho de ovelhas e seu cachorro. Ele concluíra que aquela terra estava morrendo por falta de árvores e acrescentou que, não tendo nada mais importante para fazer, ele decidira remediar aquela situação.

Levando como eu naquele tempo uma vida solitária a despeito da minha juventude, eu sabia como tratar pessoas solitárias com delicadeza. Ainda assim, eu cometi um erro. Era precisamente a minha juventude que me forçara a imaginar o futuro em meus próprios termos, incluindo uma certa busca por felicidade. Eu disse a ele que em trinta anos aqueles dez mil carvalhos seriam magníficos. Ele me respondeu muito simplesmente que, se Deus lhe desse vida, em trinta anos ele plantaria muito mais árvores do que aqueles dez mil carvalhos, de modo que eles pareceriam uma gota no oceano.

Ele também começara a estudar a propagação de faias e tinha perto de sua casa um viveiro cheio de mudas crescidas. Seus pequenos protegidos, que ele mantinha longe das ovelhas com uma cerca de arame, cresciam belas. Ele também considerara plantar bétulas nos fundos do vale onde, ele me disse, havia umidade a apenas alguns metros debaixo da superfície do solo.

........"

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