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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

No Brasil as grandes empresas de comunicação estão se enforcando com a própria corda.

Tenho ouvido falar na crise das grandes empresas de comunicação do Brasil e apesar das especulações e outros interesses que possam estar relacionadas com esse falatório, não me espanta por ser esse fato previsível e esperado.

Em 1993, li o "Decálogo do jornalismo do amanhã", escrito por um acadêmico espanhol, Juan Antonio Giner, na época presidente da Inovación Periodistica, Consultores na Espanha. Esse pequeno texto de uma lauda, mudou minhas expectativas sobre os meios de comunicação social e sobre o jornalismo do futuro.

O decálogo traçava um caminho a ser seguido pelas empresas de comunicação, caso quisessem sobreviver às vertiginosas mudanças tecnológicas que estavam por vir, visto que nada se daria na velocidade a qual estavam acostumadas. Segundo Giner, os diretores teriam que “reinventar o futuro” a cada dia.

Esse alerta para as empresas se adaptarem aos novos tempos foi dado como  uma necessidade imediata, isso há 22 anos, visto que esses  novos meios de comunicação que chegavam com a revolução digital, transformaria a nossa sociedade, assim como fez a máquina Gutemberg em 1445.

Na época em que esse texto apareceu em minhas mãos, estava no 1º ano de jornalismo e seu impacto foi tão forte que durante a minha formação busquei entender esse processo de transformação do qual eu fazia parte. Foi assim, que me dediquei  a um projeto chamado Online UNISANTA, considerado o primeiro jornal do gênero a ser produzido em uma universidade brasileira. Esse projeto na época era extracurricular, elaborado nas tardes de sábado por alunos voluntários e apesar de ser um jornal virtual, tinha como coordenador um Professor de Antropologia, o Darrell Champlin.

Nossa proposta não era adaptar o Online para ser um espelho digital de um jornal impresso, mas trabalhar as possibilidades desse novo meio e encontrar a sua linguagem. Tudo era uma incrível novidade, uma folha em branco onde as possibilidades eram infinitas, inclusive a interação com o leitor, com as fontes e com aquilo que se chamava hiperlink. Meu TCC também foi baseado nessa nova linguagem e nas perspectivas desse jornalismo.

Porém, sem prolongar a história, com o destino que o Jornal Online tomou em 1997, percebi o quanto esse novo meio e o alerta de Giner, não estava sendo entendido e nem levado a sério tanto pelo meio acadêmico quanto pelas empresas informativas, já que um deveria alimentar o outro.

Quando o meio acadêmico aprisiona um laboratório de ideias dentro de uma grade curricular, onde se obriga a participação e pior, se dá nota para algo que não tem como medir, está sendo dada a pena de morte a criatividade e ao projeto. O que demonstrou a falta de entendimento das inovações que estavam a sua frente. Foi com muita tristeza que vi isso acontecer e sabia que o Online UNISANTA estava com os dias contados, seria apenas uma questão de tempo. Ao tirarem sua alma, enterrar seu corpo seria apenas um detalhe.

Assim também vejo acontecer com as grandes empresas jornalísticas. Elas estão com os dias contados por sua própria incompetência em adaptar-se ao novo.

No Décimo decálogo, Giner diz que:

“Só terão futuro aquelas empresas que aplicam em investigação e desenvolvimento, ‘Não serão os grandes que comerão os pequenos, serão os rápidos que comerão os lentos’. Em tempos de crise, ‘deve-se pensar internacionalmente, pensar futuristamente, pensar antes que os outros”.

Essas empresas cresceram servindo a  um aglomerado de interesse que extrapolavam a sua missão Informativa. O poder econômico e político ao qual estão alicerçadas a tornaram pesadas em demasia para a agilidade necessária aos novos tempos. 

Não conseguem se reinventar e por isso mesmo irão morrer. A alternativa é continuarem sendo sustentadas pelo Poder Público, por isso o seu desespero atual. Se mesmo assim continuarem enquanto corporações, serão Assessorias de Imprensa disfarçadas. O que seria da mesma forma a sua morte.

Por isso, se uma delas falir, não jogue mais esta culpa na Dilma. Elas estão apenas se enforcando com a própria corda.

Deixo abaixo o “Decálogo do Jornalismo de Amanhã”, apesar de antigo é muito atual. Cada item pode render uma tese, pois nesses últimos 22 anos a mudança foi gritante e cada um desses itens estão em pleno andamento, confirmando o acerto de sua análise. As mudanças continuam e como advertia Giner,  de forma vertiginosa.





O DECÁLOGO DO JORNALISMO DE AMANHÃ
Por Juan Antonio Giner
Ano de 1993

As empresas informativas devem se acostumar a conviver sob a “vertigem das mudanças tecnológicas” e seus diretores têm de “reinventar o futuro” a cada dia. Estas dez megatendências da Inovación Periodistica supõe um novo mapa para os negócios da informação, no qual:

  1. Os jornais se converterão em “revistas diárias de notícias”, e os semanários só sobreviverão caso se transformem em revistas de “jornalismo de antecipação”.
  2. Os jornais, as revistas e a televisão deixarão de financiar-se pela via publicitária. O público pagará pela informação de qualidade ao preço do custo real.
  3. As empresas de cabo se parecerão cada vez mais com as companhias telefônicas. Os sinais de televisão chegarão por terra (cabo) e os de telefone pelo ar (satélite). Vão se aliar com as telecomunicações.
  4. Todos os meios serão “multimídias”. Não já sentido em falar de meios impressos e/ou audiovisuais, pois todos serão eletrônicos.
  5. Os caixas automáticos dos bancos serão as novas bancas de jornal, e a imprensa será enviada a domicílio por via eletrônica. A distribuição física deixará de ser rentável.
  6. Chegaremos à personalização das mensagens jornalísticas e publicitárias. Os meios e as mensagens pra todos são os meios e as mensagens para ninguém. A fragmentação das audiências anuncia a morte dos “mass media” e o nascimento das “micromedia”. O futuro se chama Data-Base Jounalisn e Data-Base Marketing.
  7. Redações e gerências devem falar a mesma língua. Precisamos de jornalistas que entendam de negócios e gerentes que entendam de jornalismo. O primeiro “dever ético” de uma empresa informativa é ganhar dinheiro.
  8. O jornalista de qualidade será um profissional raro. É preciso reconstruir as empresas informativas ao redor do “núcleo duto” das redações. Não se pode fazer jornalismo sem jornalistas. Diante do “jornalismo light” o futuro se chama: informação, informação: ideias, ideias.
  9. As antigas empresas jornalísticas se converterão em novas “refinarias informativas”, e a tecnologia deixará de ser uma “vantagem competitiva”. Os meios se diferenciarão somente por sua própria “octagem informativa”.
  10. Só terão futuro aquelas empresas que aplicam em investigação e desenvolvimento. “Não serão os grandes que comerão os pequenos, serão os rápidos que comerão os lentos”. Em tempos de crise, “deve-se pensar internacionalmente, pensar futurísticamente, pensar antes que os outros”.

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Juan Antônio Giner é Presidente da Inovación Periodistica, Consutores, na Espanha, membro do Comitê sobre o Futuro dos Jornais da American Spciety of Newspaper Editors e research fellow do Canter Information Policy Research da Universidade de Harvard.

3 comentários:

  1. Excelente reflexão, amiga. e, por ‘Não serão os grandes que comerão os pequenos, serão os rápidos que comerão os lentos’, entenda-se 'o mundo é dos shpiértosh.

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  2. Ou daqueles que se adaptarem às mudanças, como dizia Darwin.rs

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  3. Interessantíssimo, Sandra! Amei a sinceridade do enfoque:
    " Precisamos de jornalistas que entendam de negócios e gerentes que entendam de jornalismo. O primeiro “dever ético” de uma empresa informativa é ganhar dinheiro". Penso q todos nós cidadãos precisamos ser um pouco jornalistas, um pouco gerentes, mas acima de tudo críticos com tanta informação apressada e tendenciosa em sua maioria. Cidadania sem informação é fictícia. No sentido da análise de tudo q é gerado como informação nova acho que os semanários seguem indispensáveis quando bem embasados e confiáveis; filtram um pouco, orientam a reflexão, unem pontos aparentemente dispersos. Acho q o observatório da Observatório da Imprensa e Carta CartaCapital são bons exemplos. Matiz ideológico? Sempre. Como todos. Nesse mesmo sentido, porém, na direção oposta, penso eu q a comunicação de massa, o lixo televisivo de grande apelo popular, seguirá tendo bons patrocinadores; nacionais ou não. Afinal pra servir aos senhores do "sistema" , aos donos do capital, tudo isso foi criado. Enquanto houver a equação 1 cidadão = 1 voto, os caras não vão largar o osso, não é? No mais muito bom artigo, linda! Gostei de saber sobre seus primeiros passos enquanto ativista social, cidadã participativa. E de conhecer o Señor Giner. Valeu!

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