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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Pequena viagem sobre histórias dos rios da cidade de São Paulo



Recentemente esteve na cidade de São Paulo a diretora do programa Water inthe West, Newsha Ajami, também pesquisadora da Universidade de Stanfor, na Califórnia.  Segundo comentários e notas da imprensa, ela ficou espantada  quando viu um  enorme e caudaloso Rio, o Tietê, cortando uma cidade que está no meio de uma crise hídrica.

Rio Pinheiros, uma imagem que mostra a sinuosidade dos rios da Capital
Esse olhar estrangeiro de admiração sobre as águas do rio, deve ter sido igual aos dos padres Jesuítas  ao verem pela primeira vez os rios que serpenteavam essas terras, só que por motivo inverso, pois ali viam uma incrível fonte de vida..

 Há quem desconheça que a  cidade de São Paulo já teve sobrenome: Piratininga.  Nome esse que em Tupi Guarani significa peixe seco (Pira=peixe e tininga=seco).

Verdade!!! Porém,  não estavam secos devido a  falta de água,  ao contrário,  era por sua abundância. Naqueles tempos quando transbordavam,  os rios paulistanos avançavam  por uma grande área e ao voltarem para seus leitos deixavam enormes quantidades de peixes pelas várzeas.  Segundo o padre José de Anchieta, até 12 mil peixes ficavam encalhados e a secar ao sol.  Fico imaginando que os índios colhiam peixes ao invés de pesca-los, além de tornar mais fácil a caça de outras presas que igualmente iam aproveitar dessa colheita.

Por este motivo a região onde fica a capital paulista sempre foi cobiçada por suas águas limpas e alimentos fartos,  tanto que eram cinco aldeias indígenas que ali viviam quando chegaram os portugueses, que pelos mesmos motivos resolveram ficar por lá.
Mas não era só de Tietê, esse que vemos ainda como rio, que vivia São Paulo. Haviam outros grandes rios, como o Ipiranga e o Rio Piratininga, o que deu sobrenome a antiga São Paulo e depois  foi rebatizado como Rio Tamanduateí; tamanduá grande. O motivo dessa troca? É que justamente por ficarem aqueles milhares de peixes a secarem ao sol,  apareciam milhões de formigas... Prato dos tamanduás que viviam aos montes por aquelas matas.

Assim, esses rios proporcionaram uma cadeia alimentar que nos fez chegar na São Paulo de hoje: milhares de peixes atraiam milhões de formigas que atraiam centenas de tamanduás e toda a facilidade e riqueza ali existentes atraíram centenas, depois milhares e milhões de seres humanos, que agora passam com seus carros por cima desses rios e de todos os seus afluentes, escondidos embaixo da terra entre canos e asfaltos.
Uma vista do Rio Tamanduateí

 
Hoje o Tamanuateí está mais para tatu do que tamanduá. Pouco do que não está encoberto nem é percebido como um rio, mas como um feio canal ao lado do mercado municipal. E pensar que ele já beirou a Rua 25 de Março! Quem é que nunca se perguntou por que aquela ladeira que desce a 25 se chama porto, se ali não tem mar ou mesmo rio? Sim, ali era um Porto Geral de onde saiam pequenas embarcações que cobriam várias áreas da cidade.
 
Rio Tamanduadei entre a Ladeira Porto Geral
 O que aconteceu para tanta mudança?

 A presença de tantos rios que foi o motivo da existência da cidade, quando passou a atrair milhares de seres humanos e não mais os tamanduás, transformou-se em um obstáculo para aquilo que se chama progresso.  Os rios tiveram que ceder espaço para o tal desenvolvimento urbano.

“Não temos alternativas”, diziam alguns, como dizem ainda hoje.  O que poucos sabem é que São Paulo tem e teve alternativas, inclusive uma que poderia tê-la transformado em uma bela e linda cidade cheia de rios, parques  e com uma rede de transportes urbanos iguais ou até melhores que as de muitas capitais europeias.

Vista da Várzea do Carmo

Porém, a uma certa altura de sua história optou por  privilegiar o automóvel, que se transformou na palavra chave da modernização. O marco para essa opção aconteceu na década de 20, quando na Politécnica se travou uma disputa de ideias sobre o destino dos rios e do sistema viário da Capital.

Projeto de Saturnino de Brito
De um lado estava Saturnino de Brito, então Presidente da Comissão de melhoramento do Rio Tietê criada por lei municipal em 1923, com a tarefa de desenvolver mais um projeto para o rio. Até hoje esse projeto de  Saturnino é visto como uma obra de arte entre todos os projetos para o Rio Tietê.  
O Rio Tietê era utilizado para o lazer do paulistano
 
Ele garantia a integridade de seu leito maior e da  várzea maior, na  confluência deveria ser formado um lago, como o Ibirapuera, que seria o coração de um núcleo aquático da formação de parque.
O Tietê perderia 20 km em cumprimento e formaria  dois lagos. Saturnino eliminou a necessidade dos diques, optando por canais de dois tipos que dariam conta de escoar as águas. Em Mogi das Cruzes, seria construída uma represa para regularizar o escoamento, além de outras represas menores nos afluentes e de quatro eclusas para facilitar a navegação. Até uma ilha fazia parte do Projeto, que ficaria nas imediações da Ponte Grande e toda a sua várzea ganharia um parque linear.

O pensamento de Saturnino era de longo prazo,  visto estar em seu projeto uma visão viária urbana, tendo a hidrovia, a ferrovia e as avenidas como metas possíveis, ao mesmo tempo em que a cidade poderia aproveitar o que tinha de mais belo.


Inundação na Várzea do Carmo - hoje Parque Don Pedro II
 

Rio Itororó 1942 - hoje Avenida 23 de maio.
Só que do outro lado estavam os Engenheiros Prestes Maia e Ulhôa Cintra, com o plano  do sistema radial concêntrico de avenidas. O discurso deles caia como luva no sonho da elite paulista, que naquela época via como imagem de progresso as novas cidades americanas, cheias de prédios altos adornando largas avenidas, por onde passavam seus automóveis, símbolo de modernidade. Muito diferente daquelas imagens de mato e água em plena cidade, que no pensamentos deles poderiam ficar nas fazendas, onde tinham serventia, mas não na cidade.

Assim, a dupla falou a língua que os barões queriam ouvir e conseguiram vender a ideia. Claro que eles não  avisaram aos barões que em outros lugares admirados por eles, esse sistema só foi implantado depois que os anéis ferroviários já estavam em funcionamento e antes desses, os anéis  hidroviários. Era só queimar essas duas etapas e tudo bem, os carrinhos passariam logo sem problemas pelas belas e progressistas avenidas. A nova imagem de São Paulo.
 
Alagamento na 23 de Maio
Afinal, como ouvi no documentário que inspirou essa postagem, “Entre rios”, e que deixarei ao final, eles não estavam interessados em vender trens ou barcos e sim carros.
 
Para complicar, quando Prestes Maia foi nomeado Prefeito da cidade de São Paulo, em 1938, pelo interventor Ademar de Barros, pode facilmente colocar seu plano em ação. A forma que encontrou  para baratear os custos foi aproveitar  os fundos de vales, áreas dos rios e córregos, áreas úmidas e alagadiças, o que foi seguido por outros, para a construção de avenidas como a 23 de maio, marginais Pinheiro e Tiete, Nove de Julho, av. do Estado. Ou seja, onde passavam as águas passariam os automóveis.



“Podemos mudar os cursos dos rios, mas não podemos mudar a sua natureza” e hoje pagamos um preço caro por essas escolhas e  as consequências nos batem à porta.

Por ironia, a cidade que cresceu devido a sua riqueza hidrica, hoje vive o drama de uma crise hidrica. Sobra água para as enchentes e falta água nas torneiras. Será que aprenderemos essa lição? Pelas escolhas que os paulistanos andam fazendo, acredito que não.





Aqui há um mapa com os rios invisíveis de São Paulo.
Clique o mapa para vê-lo em tamanho maior.




Deixo abaixo o documentário de onde peguei muitos dados desse texto. 
Um documentário que todos deveriam assistir... Entre Rios - A Urbanização de São Paulo

 

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