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domingo, 8 de março de 2015

Às guerreiras do Curdistão e do mundo, que correm com os lobos e a liberdade.



Há muito questiono o que é essa busca da liberdade da Mulher dentro de nossa Sociedade Patriarcal.
Foto da página Kurdish Female Fighters Y.P.J

Percebia uma confusão entre o que era a busca de igualdade e de liberdade. As perguntas eram: quero preservar esse modelo social que nada tem a ver com meu pensamento do que seja uma sociedade igualitária? O que eu quero é me libertar enquanto mulher e poder expressar nesse mundo toda a energia pertencente ao ser feminino ou ser igual? Até quando essa igualdade de Direitos não se confunde com a igualdade de gênero? 

Eu não quero ser igual aos homens, quero que nos completemos, fato só é possível em um mundo onde a Mulher for livre de fato. Enquanto não houver essa real liberdade,  haverá um desequilíbrio.

O que vejo é uma mulher cada vez mais presa aos conceitos desse mundo Patriarcal,  que novamente a usa como forma de preservação e domínio. De uma forma mais sutil, a faz compactuar e reproduzir em si esses princípios separatistas e destruidor, muito longe dos construtivos e gregários, próprios do Ser Feminino.

Ou seja, a Mulher nos últimos anos não estava se libertando, mas sendo utilizada para preservar a estrutura que a dominou durante séculos. Ela passou a ser necessária para a demanda de produção da sociedade industrial do século XIX, e no  XX  foi acrescentada na demanda de consumo. Apenas mudou sua tarefa, mas não sua prisão e utilização, tanto que nessa sociedade encontramos os mesmos comportamentos e visão masculina em relação à mulher de séculos atrás.

Algumas leituras fizeram com que aprofundasse esse pensamento, isso lá pelos anos 80 e 90. Uma delas, Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkila Estes, onde encontrei todo o grito preso de minha ancestralidade e dei um rumo a esses questionamentos.

“ A fauna silvestre e a Mulher Selvagem são espécies em risco de extinção.

Observamos, ao longo dos séculos, a pilhagem, a redução do espaço e o esmagamento da natureza instintiva feminina. Durante longos períodos, ela foi mal gerida, à semelhança da fauna silvestre e das florestas virgens. Há alguns milênios, sempre que lhe viramos as costas, ela é relegada às regiões mais pobres da psique. As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros.

Não é por acaso que as regiões agrestes e ainda intocadas do nosso planeta desaparecem à medida que fenece a compreensão da nossa própria natureza selvagem mais íntima. Não é tão difícil compreender por que as velhas florestas e as mulheres velhas não são consideradas reservas de grande importância. Não há tanto mistério nisso. Não é coincidência que os lobos e coiotes, os ursos e as mulheres rebeldes tenham reputações semelhantes. Todos eles compartilham arquétipos instintivos que se relacionam entre si e, por isso, têm a reputação equivocada de serem cruéis, inatamente perigosos, além de vorazes... ”.

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As leis mudaram, as funções mudaram, mas a relação continua igual e para piorar, a meu ver, grande parcela das mulheres assimilou tanto esse jeito de ser masculino, que enterrou de vez seu ser mais profundo. Isso auxilia a promover toda espécie de desequilíbrio não apenas psíquico quanto social.

Por esse motivo acompanho com grande entusiasmo os acontecimentos no Curdistão, como uma luz ao final do túnel, onde conscientemente as ações revolucionárias estão gerando outros padrões de relação entre os gêneros. Uma revolução dentro da revolução.

Foi após a tomada de Kobane pelo YPJ (Unidades de Defesa das Mulheres), invadida pelo ISIS (Estado Islâmico), que nós do Ocidente passamos a ter mais informações sobre o que vem acontecendo naquele canto do mundo.

Não pretendo me estender agora sobre os detalhes, visto a complexidade do assunto.

Neste Dia Internacional da Mulher, pretendo apenas deixar esse questionamento  e  prestar minha homenagem a essas Mulheres Guerreiras em sua essência!!! Mulheres que lutam para transformar seu mundo em todos os seus espaços e não compactuam com essa futilidade que nos transformam em objetos de uso e consumo. Àquelas Mulheres que  procuram ir além da igualdade de direito, procuram a sua liberdade para construir na Terra uma sociedade onde a justiça, a irmandade, a relação com a vida não se baseie na destruição e exploração, mas na solidariedade e união com todos os elementos que nos rodeiam.

Como diz em seu livro, “Liberando la vida: la revolución de las mujeres”,  Addullan Ocalan, militante curdo e preso político,

A liberdade da mulher desempenhará um papel estabilizador e igualador na formação da nova civilização e ocupará seu lugar em condições de respeito e igualdade. Para conseguir isso, temos que trabalhar no nível teórico, programático, de organização e implementação. A realidade da mulher é um fenômeno ainda mais concreto e analisável do que conceitos como “proletariado” e “nações oprimidas”. O grau de transformação possível da sociedade está determinado pelo grau de transformações que consigam as mulheres. Da mesma forma, o nível de liberdade e igualdade da mulher determina a liberdade e igualdade de todos os setores da sociedade. Por isso, o nível de democracia que alcance as mulheres é decisivo para o estabelecimento permanente da democratização e secularização. Para uma nação democrática, a liberdade da mulher tem uma grande importância, já que uma mulher livre constitui uma sociedade livre. A sociedade livre constitui por sua vez uma nação democrática. Por outra parte, a necessidade de mudar o papel do homem é de uma importância revolucionária.
O amanhecer de uma era de civilização democrática representa não somente o renascimento de todos os povos, se não também, de forma mais específica o auge da liberdade das mulheres. A mulher, que foi a deusa criativa da sociedade neolítica, sofreu perdas incessantes no decorrer das sociedades de classes. Inverter esta história acarretará inevitavelmente transformações sociais mais profundas. A mulher, renascida para a liberdade, se somará a liberdade e justiça no âmbito geral da sociedade, em todas as instituições, em todos seus níveis. Convencerá a todos que a paz, e não a guerra é mais valiosa e desejável. O triunfo da mulher é o triunfo da sociedade e do indivíduo em todos os níveis. O século XXI deve ser a era do despertar..."

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