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quinta-feira, 5 de março de 2015

Bellas, ciao...



Após ouvir Bella ciao nas comemorações da eleição de Syriza, na Grécia, aquela batida forte ficou
cravada em minha mente por dias... Era Bella Ciao, Bella Ciao, Bella Ciao... Forte!!! Bella Ciao... Como se cada um que a cantou desde que  surgiu nos campos de arroz da Itália do século XIX, estivesse a me cumprimentar ... Bella, ciao... Olá, bela ou seria, Adeus, Bela? Estou aqui ou estive aqui? Adeus.

Bella ciao, ... Bella Ciao ... Bella Ciao... Ciao ciao... Afinal, quem era a bela?  

Seriam as donas das vozes femininas que no sofrimento a criava?  Camponesas que na marcação  do canto buscavam forças para superar o cansaço, as dores, a fome, a sede, a humilhação e os maus tratos dos seus algozes capatazes? Ou a Bella que as cumprimentavam era a Liberdade que tanto desejavam? Passando por sua realidade e se instalando em seus sonhos, a lhes dar ciao?

Bella ciao... Sim,!!! Sim, eram belas, mesmo em meio ao massacre diário de um novo sistema que as escravizavam, eram lindas resistentes!!! 

Sei que aquelas vozes que criaram essa música, eram mulheres contratadas para um trabalho, assim, teoricamente teriam opção do sim ou não. Teoricamente poderiam não aceitar estar ali... Mas, aquela colheita era a única opção entre a morte pela miséria e a vida miserável. Mesmo estando cercadas de terras, as terras não mais pertenciam aos filhos do campo, poucos comeriam o arroz que ali colhiam. Pela meritocracia era o que mereciam naquela Itália dividida, em meio às revoltas, doenças e extrema pobreza.

Em toda a Europa,  camponeses vagavam sem rumo há séculos, forçados a se adaptarem a exploração de trabalho nas fábricas das regiões industrializadas, cujas condições não eram diferentes das do campo, onde aquelas belas viviam sonhando com a liberdade em terras que seriam suas.

Seria então, Bella Ciao, a terra que seus sonhos alimentavam? Sei que muitas que ali a entoavam não sobreviviam para mais colheitas. Outras conquistaram essas terras além-mar, em um processo migratório como nunca visto antes naquelas terras.

E Bella ciao sobreviveu através dos tempos como música símbolo de resistência a opressão, saiu dos campos e ganhou novas vozes e bandeiras.

Durante a Primeira Guerra Mundial foi cantada nos protestos contra o conflito e mais tarde com outra letra foi o hino contra o fascismo e a invasão alemã. Continuou sua marcha até nossos dias marcando presença onde se manifesta forte o sentimento que impulsiona as lutas contra a injustiça e opressão.

Bella foi a força dessas mulheres que no final do Século XIX, tanto nos campos como nas fábricas, iniciaram a luta por seus direitos, melhores condições de trabalho e pela dignidade da vida.

Bellas, Ciao!!!

Primeira versão conhecida de Bella, Ciao.


“E entre insetos e mosquitos, o bela, ciao, um duro trabalho devo fazer.
O capataz em pé com seu bastão, o bela, ciao,e nós, encurvadas, a trabalhar!
Trabalho infame, por pouco dinheiro, o bela, ciao!
e a consumir a tua vida !
Mas virá o dia em que todas nós, o bela, ciao, trabalharemos em liberdade.”


Programa "Nos Cantos da História" 2 - Bella Ciao  

Laboratório de Imagem e Som Universidade do Estado de Santa Catarina 



Bella, ciao em nove línguas. 



Letra mais conhecida.

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